CiênciaJ

Número 14 - Março/Abril 2000

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Grupo de Estudos de Recursos Ambientais

Papel vs. Plástico
A batalha da protecção do ambiente

Papel

A reciclagem de papel não é comparável à de vidro e metal visto a sua reciclagem não ser um ciclo fechado, pois o papel não pode ser usado e reusado. Isto deve-se ao facto de que as fibras se degradam e deixam de ter algumas utilidades que têm no primeiro uso; realisticamente algumas fibras de papel só podem ser recicladas entre 6 a 8 vezes. Para atenuar este efeito, a matéria virgem é adicionada e misturada com fibras recicladas, chegando a casos em que quase todas as fibras são virgens. Nestes casos, a pequena fatia de matéria reciclada vende o produto, pois algumas pessoas compram preferencialmente reciclados e estes aparentam sê-lo.

O papel reciclado pode dividir-se em 2 grupos bastante distintos, um composto por papel já utilizado e que foi reciclado e outro composto por papel que restou aquando do corte do papel na produção.

O negócio da reciclagem de papel tem tido altos e baixos, dependendo das políticas governamentais e da vontade das empresas. Quando as populações estavam pouco receptivas ao papel reciclado, as empresas recusavam a sua produção, pois o escoamento do produto era menor. Mas, hoje em dia, as pessoas aceitam melhor o papel reciclado e assim, perante a crescente procura de papel e derivados do papel, o reciclado vem preencher um pouco esta procurar e diminuir o número de árvores abatidas para a produção de papel.

Com esta mudança de mentalidade e com populações mais preocupadas com o que consomem quer de recursos naturais quer de produtos reciclados, ganham todos e principalmente o ambiente.

O papel usado não é apenas aproveitado para a produção de reciclado mas também usado em alguns materiais de construção e para outros fins. O papel pode ainda ser utilizado como combustível, mas neste caso já não se trata de reciclagem, mas sim de reutilização. Apesar de a reutilização ser importante, no último caso o uso de papel como combustível é um desperdício, pois o seu poder calorífico não é muito grande quando comparado com outros combustíveis.

Plástico

Os plásticos são o que se pode chamar de "veneno dos ecologistas". Apesar de terem uma pequena "fatia" do peso dos lixos municipais, o seu volume é um quinto de todo o lixo.

A maioria dos plásticos são sintéticos, compostos por polímeros contendo hidrogénio, carbono e oxigénio (habitualmente é manufacturado a partir de petróleo e seus derivados). Os plásticos típicos não são biodegradáveis, pois se assim fosse não teriam a utilidade que têm que é "resistir" à natureza. Assim, os plásticos não só criam obstáculos no solo como também produzem enorme quantidade de detritos. Quando incinerados ou queimados, plásticos inertes emitem várias substâncias tóxicas, incluindo cancerígenas tais como as muito faladas dioxinas.

A reciclagem de plásticos em grande escala apresenta diversos obstáculos tais como:

  • a grande diversidade de plásticos;
  • a diversidade de plásticos em alguns objectos, criando uma dificuldade na separação dos mesmos;
  • alguns plásticos não conseguem ser reciclados para o seu uso original;
  • os plásticos comuns têm que ser reciclados num ciclo aberto de reciclagem.

A reciclagem de vidro em comparação com a do plástico é bastante simples, pois o plástico não pode ser derretido e transformado outra vez na sua forma original porque:

  • a qualidade do plástico diminui;
  • as temperaturas a que o plástico é derretido não são suficientes para que sejam garantidas as condições sanitárias necessárias para certos usos do plástico.

Daí que para que exista uma reciclagem apropriada do plástico é necessário arranjar usos secundários para o plástico reciclado.

Símbolo Plástico

PETE
Tereftalato de polietileno (TPE)- Plástico transparente, usado em garrafas, frascos. O Tereflato de polietileno é utilizado em cerca de 25% das garrafas de plástico produzidas. Pode ser reciclado em fibra de vidro utilizadas em roupas de Inverno, pranchas de surf, etc.

HDPE
Polietileno de alta densidade (PEAD)- Utilizado na manufactura de recipientes para detergentes, leite etc., garrafas de óleo, sacos e outros recipientes. O polietileno de alta densidade é usado em mais de 50 % das garrafas produzidas. Pode ser reciclado em garrafas de detergente, canos de drenagem, contentores de reciclagem, mesas, caixas de correio e cercas

V
Vinil (V) ou Cloreto de polivinilo (PVC)- Plásticos especialmente resistentes e não são biodegradáveis. Formas rígidas de PVC são utilizadas em canos e a forma flexível são empregadas em tecidos de vinil. Pode ser reciclado em cercas, canos etc.

LPPE
Polietileno de baixa densidade (PEBD)- Plástico utilizado habitualmente na produção de celofane. Também utilizado na produção de sacos do pão, lixo e outros tipos de contentores. Pode ser reciclado e acima de tudo reutilizado em sacos do lixo e das compras

PP
Polipropileno (PP)- Plástico bastante leve usado habitualmente no empacotamento de comida (margarina, iogurte, etc.), revestimentos entre diversos usos possíveis. Pode ser reciclado e reutilizado em alimentadores de aves, caixotes de baterias para carros e baldes de água

PS
Poliestireno (PE)- Polímero conhecido como Estirofoam, sendo bastante utilizado em embalagens, como isolante em frigoríficos, copos de café, utensílios de plástico, videocassetes etc. Pode ser reciclado em tabuleiros, termómetros, interruptores etc.
Outros- Plásticos diferentes dos outros 6 ou mistura de dos anteriores. A mistura de diferentes plásticos pode ser reciclado num plástico relativamente duro, utilizado em equipamento de exteriores, tais como mesas, cadeiras e material náutico.
Tabela que ilustra os diversos tipos de plástico
(siglas à esquerda, de origem inglesa)

Para uma fácil identificação dos plásticos tendo em vista a reciclagem dos mesmos, foi adoptado um sistema de código que é visível em vários instrumentos, aparelhos e recipientes plásticos.

Do quadro acima ilustrado, apenas os PETE e HDPE são recicláveis até qualquer extensão, sendo os outros apenas parcialmente recicláveis.

Apesar do pequeno mas significante progresso feito na reciclagem dos plásticos, esta reciclagem apresenta diferenças significantes a nível quantitativo e qualitativo em comparação com a reciclagem de fibras de papel, uma das quais provém da impossibilidade de compostagem (ver em futuros artigos e na futura página do grupo) dos plásticos e na teórica compostagem das fibras de papel e na virtual infinita reciclagem dos materiais sem uma degradação dos materiais (que teoricamente não acontece nos plásticos).

Além do problema que se prende com a reciclagem existe outro que se prende com a poluição emitida aquando da produção dos plásticos, de gases tóxicos prejudiciais ao Homem e ao ambiente.

Plástico biodegradável

O desenvolvimento dos plásticos biodegradáveis ainda agora está a iniciar-se, mas as pessoas são iludidas pelos fabricantes quando estes falam de plásticos biodegradáveis pois a palavra biodegradável é erradamente usada em vários sentidos pois, por vezes, a biodegradação está associada à deterioração ou perda da integridade física, associação errada pois a fotodegradação – quebra dos plásticos quando expostos à luz durante um período de tempo- não é sinónimo. Algumas empresas anunciam que os seus produtos têm plásticos biodegradáveis, tais como sacos de plástico, etc. Na verdade estes produtos podem ser ainda mais prejudiciais para o ambiente que os normais não-degradáveis, pois o plástico degrada-se em pequenas partículas mas mantém as características do plástico original. Estas partículas apesar de não visíveis (logo menos biodesagradáveis), podem-se dispersar mais facilmente, dispersando com elas fortes poluentes químicos e dificultando futuras remoções do ambiente destes poluentes.

A biodegradação envolve transformação bioquímica de compostos por microorganismos, não é só a transformação do plástico em segmentos mais pequenos, sendo esta transformação a primeira fase da biodegradação dos plásticos. Os produtos resultantes desta fase são bastante tóxicos, daí que mais vale os plásticos não serem biodegradáveis do que serem só parcialmente biodegradáveis. Na última fase da biodegradação, os produtos intermédios resultantes da biodegradação primária são quebrados em substâncias simples tais como CO2, H2O e CH4, substâncias estas relativamente inertes para o ambiente (exceptuando o facto que o CO2 e o CH4 são gases de efeito de estufa).

A manufactura de plásticos biodegradáveis baseia-se na introdução de pontos fracos, de modo a que os plásticos possam ser quebrados mais facilmente, sintetizando plásticos a partir de moléculas naturais produzidas pelas plantas ou microorganismos, e misturá-los com os plásticos artificiais tradicionais, obtendo-se assim plásticos resultantes de uma mistura e mais facilmente biodegradáveis.

Alguns estudos têm sido feitos, de modo a desenvolver materiais à base de celulose como por exemplo a produção de plásticos biodegradáveis a partir de casca de batata e outras plantas.

Outros estudos têm sido feitos no desenvolvimento de plásticos feitos a partir de poliesteres bacteriais, pois estas produzem uma classe de compostos usado na produção de plásticos totalmente biodegradáveis. Estas bactérias podem crescer em laboratório de modo a poderem produzir grandes quantidades desses compostos. Investigadores da Michigan University and James Madison University (Virginia) conseguiram inserir genes destas bactérias em plantas de modo estas poderem produzir os poliesteres em questão. Este estudo por seu lado trás outros problemas relacionados com o uso de solo fértil na produção de poliesteres em vez de alimento.

A preocupação com os plásticos não irá acabar com os plásticos biodegradáveis pois a maior parte dos solos não promovem muito a actividade dos microorganismos, actividade essa necessária à degradação dos plásticos biodegradáveis. Se no futuro os plásticos biodegradáveis tornarem-se comuns, instalações especiais de compostagem terão que ser construídas para promover a degradação destes plásticos.

Assalto final... Qual prejudica menos o ambiente e qual é que deve ser escolhido em certas situações

Se após a introdução à reciclagem do plástico e do papel esta questão parece simples de responder para a maioria das pessoas, na verdade existem alguns factos a levar em conta. Para a maioria das pessoas, o papel será o que prejudica menos o ambiente porque:

  • é biodegradável, visto ser feito das fibras das plantas e das árvores que são biodegradáveis;
  • é reciclável.

A contrastar com o papel, está o plástico, pois a maioria dos plásticos são manufacturados usando produtos petroquímicos, não sendo muitas vezes fácil a sua reciclagem e não sendo economicamente viável, e uma vez manufacturado poderá durar virtualmente para sempre, pois os plásticos não são biodegradáveis num espaço de tempo útil.

O papel e cartão têm uma grande fatia dos lixos municipais produzidos, em comparação com o plástico que possui uma parcela mais pequena do peso total dos lixos municipiais. Nos Estados Unidos o cartão e o papel tem uma fatia de perto de um terço do peso de todo o lixo municipal produzido , tendo o Luxemburgo a menor taxa de cartão e lixo nos lixos municipais de todos os países desenvovidos (17%). Quanto ao plástico, Portugal é dos países desenvolvidos com menor fatia do peso total de lixos composto por plásticos nos lixos municipais (3%) tendo a Suíça 13%.

Se é verdade que papel e produtos derivados da madeira são teoricamente biodegradáveis, em boa parte dos solos eles não se biodegradam, pois estes solos não são favoráveis ao crescimento de microorganismos, daí que a resposta à pergunta entre plásticos e papel não seja sempre simples. Abaixo estão referidos vários exemplos em que a dúvida sobre a escolha de papel ou plástico se põe. Milhares de árvores são abatidas todos os anos para serem transformadas em pasta e em derivados do papel. Por seu lado, como todos sabemos o papel é reciclável, mas então porque é que todos os anos se continua a abater árvores? Porque é que não se pode reciclar a enorme quantidade de papel que acaba nas lixeiras, ou nas incineradoras??

O maior problema da reciclagem do papel é a modificação das suas fibras à medida que o papel é usado e reusado. Para ser reciclado, o papel tem que ser humedecido e convertido em pasta antes de ser novamente transformado em papel. No processo de transformação em pasta, as fibras são quebradas, logo o papel feito de fibras recicladas será composto por fibras mais pequenas que as originais, resultando um papel de inferior qualidade e de resistência inferior entre as fibras. O papel reciclado diversas vezes, terá fibras cada vez mais pequenas e o papel terá cada vez menos resistência, logo este papel terá um valor económico pequeno e usos também reduzidos. A partir de certo ponto, as fibras terão dimensões demasiado pequenas para poderem ser usadas na maioria das suas utilizações. Assim, os jornais, não podem conter unicamente fibras recicladas pois seria complicada a impressão nestas folhas, visto serem muito fracas. O Jornal Los Angeles Times é impresso em papel com 80% de fibras recicladas e 20% de fibras virgens, o que já é um passo em frente na reciclagem e reutilização. Quanto ao papel higiénico é uma solução para este papel composto por pequenas fibras.

O papel não precisa de ser todo reciclado pois a reutilização também é possível tais como em caixas de cartão, e o papel não totalmente impresso (ou só de um lado) pode ser utilizado para rascunho ou documentos pouco importantes (prática comum na AJC), sacos de papel etc. Nestes pequenos reusos, não só se poupa o ambiente como também se poupa dinheiro (as resmas de folha não se vendem ao preço da pastilha elástica...).

Em comparação com o papel, os plásticos têm menor potencial de uso, logo menor percentagem do peso dos lixos domésticos, mas alguns usos do plástico são os mesmos dos do papel, como é o caso de embalagens, que algumas podem ser plásticas ou de cartão, havendo mesmos casos de embalagens compostas simultaneamente por cartão e plástico.

Em questões de reutilização, os plásticos apresentam vantagens em relação ao papel, pois por exemplo os sacos de papel são menos resistentes que os de plástico, logo reutilizáveis menos vezes que os de plástico. Por outro lado, caso o saco de papel se estrague, pode ser reciclável; por seu lado o de plástico não pode ser reciclado tão facilmente quanto os de papel. Ao longo dos anos os sacos e contentores de plástico foram tornando-se mais leves, menos densos mantendo-se a sua resistência. A necessidade de matérias resistentes e amigas do ambiente é urgente.

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António José Rocha
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