CiênciaJ

Número 05 - Setembro/Outubro 1998

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Máximo Ferreira

Está (quase) sempre de olhos postos no céu, é o grande divulgador da Astronomia em Portugal, é responsável pelo Sector de Astronomia do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa e fala sobre o que faz com um entusiasmo contagiante.

É com esse mesmo entusiasmo ( e, convenhamos, uma boa dose de dedicação) que desenvolve os muitos projectos em que se envolve. É com esse entusiasmo que tem ultimamente percorrido o país, com binóculos, telescópios, vídeos, computadores, mapas celestes, etc, etc, etc, promovendo as mais diversas actividades inseridas no programa "Astronomia no Verão". E é também com esse entusiasmo que nos assegura que só vai deixar de contemplar os astros "quando não fôr capaz de inclinar a cabeça para o céu" ou lhe faltarem forças para apontar um telescópio. Falamos de Máximo Ferreira, a pessoa que conseguiu e consegue pôr tantos portugueses de olhos postos nas estrelas...

Professor Máximo Ferrira

Professor Máximo Ferreira, é esta a imagem que deixa transparecer de si?

Na verdade, ao desempenhar o meu trabalho, não penso em dar de mim qualquer imagem. No entanto, é provável que seja essa a ideia da maioria das pessoas que tem algum conhecimento do que faço.

Quem é, afinal, o professor Máximo Ferreira?

Actualmente responsável pelo Sector de Astronomia do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa (MCUL). O Museu de Ciência - que ainda não ocupa todo o espaço que, por lei, lhe foi atribuído - possui actualmente duas grandes salas com experiências e demonstrações interactivas no domínio da Física e, na área da Astronomia, um Planetário com capacidade para 38 pessoas, um Observatório Astronómico e um Auditório. Para além de sessões públicas de observação do céu real, programo e conduzo as sessões de planetário dedicadas a estudantes, elaboro e lecciono cursos de Introdução à Astronomia ministrados no Museu.

Como resultado de protocolos estabelecidos entre o Museu e autarquias, centros de formação e Secretaria de Estado da Juventude, e ainda projectos e solicitações do Ministério da Ciência e da Tecnologia, o sector de Astronomia do MCUL está a apoiar - técnica e cientificamente - a criação de três pequenos observatórios astronómicos em Constância, Castro Verde e Lagos, realiza acções de formação para professores - no âmbito do Programa FOCO e fora dele, - coordena a Área de astronomia no Programa Galileu (FDTI-SEJ), executa projectos integrados no Programa Ciência Viva e desenvolve - em parte do país - o Programa Astronomia no Verão.

Fale-nos um pouco do seu percurso científico e da sua área de investigação actual...

Com formação académica inicial, prática e docência na área da electrónica, o interesse pela Astronomia - surgido já perto dos 30 anos - levou a encarar a física como uma ferramenta indispensável ao aprofundamento de alguns temas astronómicos. Apesar de um interesse especial pela física solar e pela análise espectral da luz estelar, a intensa ocupação resultante de inúmeras solicitações para o ensino e divulgação não têm deixado disponível o tempo necessário para uma investigação profunda e consequente. Mesmo a participação em encontros internacionais tem sido limitada pela falta de tempo.

Como é que surgiu o seu interesse pela Ciência em geral e pela Astronomia em particular?

Desde muito novo ligado a áreas de mecânica, química e, depois, electrónica, foi através desta última que durante o serviço militar fui colocado no planetário da Marinha (também conhecido por Planetário Gulbenkian). O trabalhar com equipamentos que simulavam aspectos celestes levaram-me a estudar a realidade. Para além do curso de Fisica na Faculdade de Ciências de Lisboa e disciplinas de Astronomia de outros cursos, tornou-se indispensável o recurso a bibliografia estrangeira e alguns contactos internacionais. Depois... foi só trabalhar! Muito e com prazer. Nunca me senti cansado de trabalhar 12, 18 e até 24 horas por dia a explicar ou a observar.

Que tipo de obstáculos teve que ultrapassar para seguir uma carreira nesta área?

Nunca senti grandes obstáculos. Sempre consegui realizar os projectos a que me propus. É verdade que tive sempre o cuidado de não desejar o impossível.

Que motivações o levaram a prosseguir?

Algumas dificuldades e, por vezes, atitudes menos bonitas por parte de pessoas ligadas à mesma área têm-me ajudado muito a trabalhar mais e a ter preocupações de fazer sempre melhor.

Qual a sua opinião sobre a forma como a Ciência é ensinada nas escolas, nomeadamente no que toca ao grau de valorização que é dado a actividades de experimentação e a actividades extracurriculares? O que é que ainda falta?

Penso que é urgente fazer qualquer coisa, embora não saiba bem o quê e tenha a certeza de que qualquer medida a tomar não será fácil de delinear e muito menos de aplicar. Há que reconhecer que o ensino essencialmente teórico nunca terá sucesso e que a evolução tecnológica é de tal forma rápida que será praticamente impossível implementar reformas curriculares a ritmo adequado. por outro lado, penso que a maioria das Escolas Superiores não estabelece a conveniente ligação entre o Ensino Secundário e a vida posterior à carreira académica.

Parece-me que qualquer reforma deve começar ao nível da formação de professores. não haverá êxito de currículos cuja filosofia, conteúdos e objectivos não sejam previamente assimilados pelos professores.

Programas de divulgação como o programa "Astronomia no Verão" vêm, de certo modo, preencher as lacunas que existem no ensino e divulgação das ciências?

Não penso que o programa "Astronomia no Verão" preencha as lacunas... porque são muitas! No entanto... ajudará muito!

A que é que se deve o sucesso já há muito confirmado do programa "Astronomia no Verão"?

Em primeiro lugar, à apetência que todas as pessoas revelam por temas que têm a ver com a magia que envolve as histórias antigas ligadas ao céu observável à vista desarmada e, mais recentes, os objectos estranhos como os buracos negros ou os quasares, a expansão do Universo, etc. Depois, porque o programa foi elaborado com algum cuidado e envolve os recursos técnicos e humanos que, em geral, são os mais adequados.

É um programa para continuar?

O programa é da responsabilidade do Ministério da Ciência e da Tecnologia que se tem esforçado por o tornar cada vez mais amplo e diversificado. Penso que será para continuar.

Que tipo de público tem aderido com maior ênfase a esta iniciativa?

A generalidade dos cidadãos, como era de esperar. Para além de um interesse específico de professores e alunos que - no âmbito de algumas disciplinas - se interessam por um ou outro tema, é considerável o número de pessoas que, de outras áreas profissionais leram livros de astronomia ou viram filmes ou documentários e põem questões curiosas, algumas das quais não têm ainda resposta.

A Ciência portuguesa carece deste tipo de iniciativas? Como é que se posiciona em relação ao panorama científico português? Encara-o com optimismo?

Penso que estas acções se tornarão indispensáveis para que os portugueses atinjam um nível de cultura científica que lhes permita alguma compreensão do trabalho dos cientistas, da razão das matérias ensinadas nas escolas e, especialmente, dos diversos aspectos da vertiginosa evolução tecnológica.

Quais serão, na sua opinião, os avanços científicos mais determinantes nos próximos anos?

Penso que os progressos mais espectaculares (alguns deles preocupantes) se verificarão na área da Biologia. Obviamente, isto terá também alguma coisa a ver com vida fora da Terra.

E quais as grandes questões com que a Astronomia se vai defrontar?

Julgo que as grandes questões actuais demorarão ainda muitos anos a resolverem-se: a universalidade da teoria da relatividade, as tentativas de estabelecer uma teoria da "grande unificação" e os conceitos acerca do princípio e do fim do Universo...

A que pergunta gostaria de responder um dia?

Sim, chegámos agora de um encontro com extraterrestres!

A que pergunta gostaria de responder agora?

Amanhã, o sector de astronomia do Museu de Ciência vai ter recursos humanos necessários para receber alunos e público em geral, diariamente!

Em tempo de férias, falemos de tempos livres... Já agora, costuma ter tempos livres? Como é que os ocupa?

Não tenho tempos livres. Há sempre programas de astronomia a cumprir ou livros para escrever, rever ou traduzir.

Há algum livro, algum filme que o tenha marcado particularmente?

Vejo poucos filmes e tenho muito pouco tempo para "ler livros". No entanto, marcaram-me, de formas diferentes, o filme Fernão Capelo Gaivota e o livro de Carl Sagan Cosmos. Mais recentemente, o filme Contacto.

Última pergunta... Vai continuar a contemplar os astros? Até quando?

É claro que sim. Até quando? Só a vida o dirá. No entanto, penso que só quando não for capaz de inclinar a cabeça para o céu ou me faltarem forças para apontar um telescópio!...

Mónica Mendes
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